sábado, 19 de junho de 2010

A humanidade perde um humanista

Saramago esteve em Porto Alegre em 1999. na ocasião, afirmou em palestra que não era necessário que nos amássemos, mas sim que nos respeitássemos. único escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel, Saramago enfrentou o desrespeito de quem não o tomava a sério. esse tipo de fechamento para o outro comprova que a cortina das convicções políticas continuam a dividir, a impedir o diálogo, a promover intolerância e ignorância.
antes de socialista, Saramago era um humanista. condenou a repressão e o autoritarismo de regimes de esquerda, enfrentou o exílio defendendo a liberdade de (des)crença. “Não sou um pessimista, o mundo que é péssimo”, disse, lamentando a miséria humana, a exploração do homem pelo homem, o raciocínio unidimensional. era avesso ao tecnicismo e à tecnologia que embrutece – não cogitava utilizar ebooks porque não se imaginava derramando lágrimas sobre um visor eletrônico.
é verdade que seus livros, mais das vezes, se apresentam como parábolas. os personagens existem em função de algo maior, de uma “moral da história”. Saramago quer oferecer respostas, e isso incomoda os defensores da arte pela arte, da finalidade sem fim. o escritor português não renegava a história, não descolava a arte do mundano, não se catapultava à descompromissada esfera do belo.
seu talento, entretanto, passou longe de ser despercebido. Saramago morreu com os ouvidos treinados no aplauso. foi lido como poucos grandes escritores contemporâneos.
despediu-se com o belo e singelo "A viagem do elefante" e o polêmico "Caim". com o corajoso O Evangelho segundo Jesus Cristo, fez com que o braço da Literatura estremecesse instituições e abalasse convicções.
dentre os livros que tive o prazer de ler, é o que apresenta personagens mais carismáticos e tridimensionais, é onde a prosa do escritor reencontra a sensibilidade da poesia que marcou sua infância literária.
hoje morreu um maestro da linguagem que ergueu a bandeira do humanismo mesmo sob a tempestade que lhe tentou em contrário, mesmo contra a desilusão e o esvaziamento das utopias, mesmo apesar da humanidade. hoje, ler as páginas de que viveu o escritor. é a melhor retribuição possível. é assim que o manteremos vivo.

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