Saramago esteve em Porto Alegre em 1999. na ocasião, afirmou em palestra que não era necessário que nos amássemos, mas sim que nos respeitássemos. único escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel, Saramago enfrentou o desrespeito de quem não o tomava a sério. esse tipo de fechamento para o outro comprova que a cortina das convicções políticas continuam a dividir, a impedir o diálogo, a promover intolerância e ignorância.antes de socialista, Saramago era um humanista. condenou a repressão e o autoritarismo de regimes de esquerda, enfrentou o exílio defendendo a liberdade de (des)crença. “Não sou um pessimista, o mundo que é péssimo”, disse, lamentando a miséria humana, a exploração do homem pelo homem, o raciocínio unidimensional. era avesso ao tecnicismo e à tecnologia que embrutece – não cogitava utilizar ebooks porque não se imaginava derramando lágrimas sobre um visor eletrônico.
é verdade que seus livros, mais das vezes, se apresentam como parábolas. os personagens existem em função de algo maior, de uma “moral da história”. Saramago quer oferecer respostas, e isso incomoda os defensores da arte pela arte, da finalidade sem fim. o escritor português não renegava a história, não descolava a arte do mundano, não se catapultava à descompromissada esfera do belo.
seu talento, entretanto, passou longe de ser despercebido. Saramago morreu com os ouvidos treinados no aplauso. foi lido como poucos grandes escritores contemporâneos.
despediu-se com o belo e singelo "A viagem do elefante" e o polêmico "Caim". com o corajoso O Evangelho segundo Jesus Cristo, fez com que o braço da Literatura estremecesse instituições e abalasse convicções.
dentre os livros que tive o prazer de ler, é o que apresenta personagens mais carismáticos e tridimensionais, é onde a prosa do escritor reencontra a sensibilidade da poesia que marcou sua infância literária.
hoje morreu um maestro da linguagem que ergueu a bandeira do humanismo mesmo sob a tempestade que lhe tentou em contrário, mesmo contra a desilusão e o esvaziamento das utopias, mesmo apesar da humanidade. hoje, ler as páginas de que viveu o escritor. é a melhor retribuição possível. é assim que o manteremos vivo.
hoje morreu um maestro da linguagem que ergueu a bandeira do humanismo mesmo sob a tempestade que lhe tentou em contrário, mesmo contra a desilusão e o esvaziamento das utopias, mesmo apesar da humanidade. hoje, ler as páginas de que viveu o escritor. é a melhor retribuição possível. é assim que o manteremos vivo.
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